[Emerson Macedo] [Caos no Rio - OFF TOPIC] Refletindo sobre valores da vida

Hoje o Rio de Janeiro viveu um dos capítulos mais feios de sua linda história. Considerada a Cidade Maravilhosa, hoje vimos uma cidade sitiada, com o medo imperando e muita apreensão nas ruas. O motivo de eu escrever esse post sobre o assunto não é diretamente o que aconteceu, mas sim as causas do ocorrido.

A minha história

Pra quem não sabe, eu nasci no suburbio aqui do Rio de Janeiro, mais precisamente no Hospital Albert Swaizer em Realengo e morava num barraco dentro de um beco numa espécie de favela em Padre miguel (atrás da menina de mochila rosa) — As imagens de hoje são muito melhores de quando eu era criança — Lá era uma situação muito difícil, pois a maioria das pessoas era envolvida com alguma coisa errada. Meus Pais se separaram e fui morar na casa dos meus avós com minha tia, que era jovem e trabalhava num emprego modesto. Meu avô trabalhava na companhia de lixo (CONLURB) e minha avó era dona de casa. Essa tia — mãe do coração que me criou — tratou de me tirar daquele ambiente e não mediu esforços para que eu não fosse influenciado por aquele meio. Sempre me deu boa educação (inclusive em casa) e me afastando das amizades erradas. Vários dos meus coleguinhas, que brincavam comigo de bola de gude, pipa, futebol, e outras coisas mais, já morreram ou estão presos. Alguns outros felizmente conseguiram se safar.

Contei essa história apenas pra mostrar que não estou querendo dar uma de entendido, mas eu sei muito bem como funcionam as coias em ambientes desse tipo.

Atacando o problema na Raiz

Após tudo que aconteceu hoje, li muitas mensagens no twitter de manifestação de ódio para com os bandidos, a maioria desejando uma chacina. Veja bem, eu não defendo em hipótese alguma que haja impunidade. Pelo contrário, independente de qualquer coisa, cada cidadão é responsável pelos seus atos e deve responder pelo que faz. O que me incomoda na verdade é que no meu modo de ver as coisas, nossa indignação está sendo direcionada de forma equivocada.

As crianças e a marginalidade

É sabido por todos que cada vez mais os traficantes estão iniciando crianças de 10, 12 anos e por algumas vezes até mais novas para começarem no tráfico. Muitas desssas sequer tiveram a oportunidade de estudar. Muitos bandidos começam oferecendo a essas crianças sexo com mulheres mais velhas, depois drogas e ai a criança já está completamente dominada. Crianças nessa idade ainda não tem a personalidade formada, portanto acho injusto atribuir culpa a uma criança dessas, pois a maioria não tem condições de resistir a esses assédios.

Eu me lembro quando em 2005 eu participada de um trabalho da minha Igreja na favela da coreia, tinha uma criança que aparentava ter uns 8 ou 9 anos de idade, mas já tinha um fuzil pendurado no corpo e ficava sentado numa cadeira de ferro, protegendo o acesso a rua que ficava a casa, onde acontecia a reunião da Igreja. Aquilo sempre me doeu o coração. Era uma situação muito triste. Me lembro que por algumas vezes fui em alguns lugares ali por dentro com meu amigo, que morava e foi criado ali. Geralmente  eu via muitas crianças largadas, sem qualquer assistência, presas fáceis para se tornarem futuros bandidos.

O papel do Estado Brasileiro

Nossos governantes tem falhado miseravelmente há decadas, no que diz respeito a saúde, educação, qualidade de vida, programas sociais, entre outros. O máximo que se vê são os bolsa-isso, bolsa-aquilo, bolsa-etc. Apenas tapando o sol com a peneira.

A cada ano que passa, o ensino público piora mais. Na minha época de infância e adolescência, o nível da escola pública era igual e em alguns casos até melhor que as escolas particulares. Tenho grandes amigos que são testemunha disso. Na geração seguinte a coisa já começou a ficar complicada. Hoje em dia nem se fala.

Sobre a saúde em nem vou perder meu tempo …

Pra piorar, o poder público usa uma estratégia bem conhecida e que sempre deu resultado. Eles criam o problema (falta de condições básicas para todo cidadão), agem em cima do problema (matando) e ainda ganham os aplausos da sociedade (que adora ver bandido morrer), sendo que eles são os principais culpados.

Além disso, não existe no sistema penitênciário brasileiro uma forma de recuperar os bandidos que são presos. É lógico que nem todos querem isso, provavelmente uma minoria, mas certamente é papel do estado oferecer essa oportunidade, até porque não a ofereceu para a maioria dessas pessoas quando ainda eram crianças.

Oportunidade de redenção

É impressionante como nós somos implacáveis com as outras pessoas, mas quando é conosco somos tremendamente generosos. Quando uma pessoa erra, caimos condenando, mas quando erramos sempre temos nossas justificativas e achamos que merecemos outra chance.

Certa vez, assistindo um programa de televisão que debatia o Caso Eloá Cristina, se não me engano o Jornalista Roberto Cabrini, criticando veemente e agredindo com palavras, disse que perguntou ao maniaco do parque: “E se a moça fosse a sua filha?”. Ele recebeu outra pergunta de volta: “E se eu fosse seu filho?”. Cabrini disse que ficou totalmente embaraçado e que isso o fez refletir sobre o quanto agente gosta de pagar o mau com o mau.

Toda pessoa tem direito a uma nova chance. Bandidos deveriam ser presos e deveria existir uma forma de recuperar os que estivessem dispostos a isso (Sinceramente eu não acredio que a pessoa nasça bandido, ou com a índole ruim, etc). Alguns infelizmente não vão querer reabilitação e esses deveriam permancer presos, o que também não acontece, pois após cumprir a pena são soltos, independente de estarem em condições de integrar a sociedade.

Conclusão

Por diversas razões, eu não me surpreendo mais com o desejo de ver sangue que existe em nossa sociedade. Essa falta de amor está prevista na bíblia, meu livro de fé e prática. Sinceramente acho que a tendência infelizmente é piorar, pois o mundo está ficando cada vez mais egoista.

De fato, aqueles que cometem delitos precisam pagar por isso, afinal de contas tudo tem uma consequência. Meu ponto maior é que essas pessoas também são seres humanos e precisam ser tratados como tal. Desejar a morte delas é nos tornar tão ruim ou até pior que essas pessoas.

Hoje em dia vejo muita gente que nunca passou fome na vida ou nasceu em uma família com uma condição boa que olha essas pessoas como se fossem lixo. Não tem a menor noção do que é nascer nessas condições. Por outro lado, vejo pessoas que se gloriam em terem vencido essa situação e crucificam os que não conseguiram. Eu prefiro agradeçer muito a Deus e a minha Tia-Mãe por ter me tirado da convivência e das influências, pois eu poderia ter tido o mesmo destino de alguns coleguinhas de infância, não fossem essas oportunidades.

Indo direto ao ponto, o problema maior está no poder público que não oferece condições básicas iguais para todos os brasileiros. Se fosse assim, ai poderiamos questionar que as escolhas dessas pessoas foram mau feitas. De outra forma, é muita injustiça da nossa parte, principalmente porque a maioria delas foi assediada quando criança.

Pra finalizar, vou falar um pouco do que eu acredito. O mundo tem se esquecido de Deus. Cada vez mais as pessoas só pensam em si próprias, e o exercício do amor ao próximo praticamente não existe.

Então não se esqueça. Somos nós que cuidamos desse mundo. Se ele está assim, cabe a nós muda-lo.

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