[Emerson Macedo] Não se apaixone pela sua tecnologia

Cansado das briguinhas recentes em listas de discussão, blogs e foruns sobre Ruby x Python, resolvi escrever sobre o assunto de forma totalmente imparcial. Serei imparcial, não por causa do blog, mas porque com esse tipo de assunto eu sempre geralmente sou imparcial, pois pela diversidade de empresas que trabalhei durante os meus mais de 12 anos de carreira, acabei sempre trabalhando com as 2 linguagens que eram o motivo da briguinha, em cada época distinta.

No início

Em meados de 1997/1998, pouco antes da bolha da internet, quando eu comecei a trabalhar profissionalmente, eu trabalhava com eletrônica e informática em uma empresa de automação de ponto e acesso. Tive a oportunidade de usar Delphi para desenvolver um protótipo de sistema integrado ao hardware de ponto e acesso dessa empresa, pois eles usavam um programas DOS para extrair dados e jogar num arquivo texto, e o outro programa DOS fazia a leitura desse arquivo para gerar o resuldado de ponto e o acesso. Foi uma experiência ótima, pois meu protótipo acessava diretamente o equipamento pela porta serial e já mostrava as informações em tempo real. Essa idéia foi pouco tempo depois usada pela fábrica para novas versões do software.

Nessa época, a programação desktop ainda reinava e as opções mais comuns eram Delphi e Visual Basic, então sempre algum colega ou outro puxava a sardinha pro lado do Delphi ou do VB. Nessa época, confesso que eu era meio bobo no assunto e eu acabava entrando na onda também, principalmente falando mau do coitado do VB. Tempos depois acabei trabalhando com VB em outros lugares e pude perceber que existia aplicação para ele dependendo do caso. Confesso que sempre gostei mais do Delphi, mas nesse momento eu deixava de ser um apaixonado e passava a fazer a escolha de forma mais racional.

Surge o desenvolvimento pra Web

Quando começei a trabalhar com web em meados de 2000, trabalhei com PERL, depois ASP e ColdFusion. Nesse tempo, surgiu a versão Beta do DotNET em 2001. Foi quando comecei a desenvolver aplicações desktop em WindowsForms e alguma coisa web, com o objetivo de aprender.

Passado pouco tempo e fui trabalhar numa empresa onde usavam tudo da Microsoft. Java nem pensar nessa empresa. Todos falavam mau da Sun e do Java. Nessa época eu já estava bem escaldado com isso e não ia cair nessa novamente, perdendo meu tempo discutindo sobre quem era melhor, Java ou DotNET.

Passado mais um tempo, fui para uma outra empresa onde tinha projetos em DotNET, mas também tinha projetos Java. Como eu já estava estudando Java fazia um tempo, era uma ótima oportunidade para por em prática em algum projeto. Assim que surgiu uma vaga, me ofereci para entrar num projeto de um grande ecommerce brasileiro (que por algumas questões não posso citar o nome). Esse projeto foi ótimo para eu por em prática meus conhecimentos de Java. Nesse momento eu percebi que o pessoal de Java também gostava de falar mau do pessoal de DotNET. Na minha mente estava bem claro que isso era pura perda de tempo, pois claramente nos projetos que eu havia trabalhado eu pude perceber o valor de cada uma dessas tecnologias em cada contexto.

Passou o tempo e acabei não trabalhando mais com DotNET. As empresas seguintes foram todas com Java, exceto aqui na globo.com, onde voltarei a falar mais pra frente.

Muitos FUDs

Uma coisa que sempre percebi nessas brigas é que raramente usava-se argumentos lógicos e bem fundamentados. Geralmente as discussões eram baseadas em achismos e usavam algum argumento falacioso ou duvidoso/pouco claro.

Quando trabalhei para algumas empresas de Telecomunicações, Bancos e Seguradoras aqui no Rio de Janeiro, quase sempre havia um bom legado em COBOL e seus velhinhos de plantão dando manutenção nesses sistemas. Volta e meia eu ouvia algo do tipo: “Esse negócio de Java é apertar botãozinho e ta tudo pronto. Homem que é homem programa em COBOL”. Isso não fazia o menor sentido e por mais que eu tentasse explicar pros caras que não era bem assim, não adiantava, já existia uma opinião sem fundamentos formada na cabeça deles.

Numa dessas últimas empresas que trabalhei (para um dos maiores Bancos do nosso país), eu era Arquiteto junto com mais 14 desenvolvedores em um projeto Java que precisava se comunicar com programas COBOL/CICS. Sabe o que os COBOLEIROS diziam? “Só usem java pra pegar o que for processado aqui no COBOL porque aqui é que aguenta o tranco. Esse negócio de Java só serve para a parte levinha“. Apesar de conhecer sobre todo o poder de processamento dos Mainframes, eu sabia que aquilo era apenas uma provocação, pois eu já havia trabalhado em sistemas web feitos com Java com volumes bem maiores que os desse sistema e tudo correu muito bem. Sendo assim, nem entrei em discussão sobre isso, pois eles já tinham se fechado para o assunto.

Nossos dias atuais

Hoje em dia está muito na moda o uso de linguagens dinâmicas como Ruby e Python para desenvolvimento de software, muitos deles aplicações web. Existem diversos casos de sucesso usando essas tecnologias, e mais uma vez surgem as brigas pra saber qual é a melhor: Ruby ou Python.

Não espere aqui uma opinião minha sobre o que é melhor entre as 2, pois isso não vai acontecer. Não porque eu não tenha preferências, mas simplesmente porque melhor ou pior sempre dependerá do contexto e não somente da tecnologia.

Python é uma linguagem muito usada no mundo opensource, tendo muitos aplicativos console e desktop desenvolvidos para linux. A primeira versão do Youtube foi escrita em Python (não sei se ainda é). O Google AppEngine apesar de suportar Java, foi construido para Python. Existem diversas iniciativas que usam Python e são bem sucedidas.

Ruby apesar de ser uma linguagem bem antiga (1993), só explodiu mesmo com a chegada do Rails (2004/2005). Antes disso ninguém ouvia falar de Ruby. Mesmo assim, Rails trouxe uma ascensão meteórica para o Ruby, surgindo um ecosistema incrível, com uma série de produtos bem sucedidos e documentações fantasticas, screencasts, entre outros. Destacou-se muito com as ferramentas de testes automatizados que tanto precisamos hoje em dia para desenvolvermos software com qualidade.

No time onde eu trabalho na globo.com, desenvolvemos projetos em Java, em Python/Django e Ruby on Rails (projeto atual). Cada uma das escolhas teve razões lógicas e seus benefícios (que se comprovaram). Essa versatilidade faz com que esse time possa trabalhar em praticamente qualquer projeto da empresa, já que tem conhecimento nas principais linguagens que a empresa trabalha. Isso é muito mais benéfico do que ficar preso a uma tecnologia, defendendo-a com unhas e dentes.

O Mito do não escala

Com o advento dessas linguagens dinâmicas, deu bem pra perceber como a maioria dos profissionais não entendia/não entende quase nada sobre escalabilidade de sistemas web. Assim como o COBOLEIRO falava que o Java não aguentava o tranco, começaram a falar que linguagens dinâmicas não escalavam, principalmente o famoso “Rails não escala”.

Certa vez eu lí um post de 2004 (antes do Rails) que já falava sobre esse mito de não escala. Vale a pena conferir aqui. E tem também um screencast mais recente(baixe o vídeo e assista) do Gregg Pollack que nos primeiros minutos mostra na maioria das vezes o que deixa um site lento. Dica: tem pouco a ver com a tecnologia usada.

Portanto, não caia nessa. Pesquise e aprenda como escalar sua aplicação, independente de você estar usando Python/Django Ruby/Rails, Java, DotNET ou qualquer outra tenologia do seu projeto.

Conclusão

Mesmo com essas 2 tecnologias (Ruby e Python) fazendo seu sucesso nos dias de hoje e tendo seu contexto para serem aplicadas, o pessoal ainda continua brigando pra defender a sua tecnologia preferida. Parece que cria-se uma paixão cega pela linguagem, como se fosse uma espécie de religião, saindo do racional e passando a ser totalmente irracional.

Dessa forma, meu conselho para todos os profissionais é que não entrem nessa de ficar defendendo sua tecnologia preferida e atirando pedra na tecnologia concorrente. Aprenda ambas e saiba onde e quando usar cada uma delas.

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